Com barreiras e restrições a turistas, cidades pequenas em MG seguem sem casos de Covid-19

Por Rodrigo Matarazzo em 08/08/2020 às 06:55:41
Sete cidades do Sul do estado livres da doença têm algumas caraterísticas em comum. A principal é o tamanho - todas tem menos de 8 mil habitantes.

Enquanto Minas Gerais caminha para cinco meses desde os seus primeiros casos de coronavírus, cidades pequenas no Sul do estado ainda não registraram confirmações da doença. Os sete municípios livres da Covid-19 fazem parte de um universo de menos de 2% das cidades brasileiras, segundo o Ministério da Saúde.

Minas Gerais é o estado com mais cidades sem casos confirmados do coronavírus. No Sul de Minas, esta é a realidade em cidades turísticas importantes, como São Tomé das Letras e Gonçalves. Fama, às margens do Lago de Furnas, que costuma receber visitantes da região principalmente aos fins de semana, também conseguiu bloquear a entrada do vírus até o momento.

Alagoa, Consolação, Dom Viçoso e Liberdade completam a lista, que só diminui ao longo do tempo. A última "baixa" foi em Marmelópolis, que também não tinha nenhum caso, mas registrou sua primeira contaminação na Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) na quinta-feira (6).

Apesar de seguirem recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde, como a maior parte das cidades brasileiras, não é possível definir de fato o que foi fundamental para que as cidades conseguissem chegar ao mês de agosto sem nenhuma confirmação.

Mas é possível traçar pontos em comum. O primeiro delas é o tamanho - todas as sete cidades do Sul de Minas sem pessoas contaminadas têm menos de 8 mil habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A maior é São Tomé das Letras, com pouco mais de 7 mil habitantes. A cidade também é uma das mais importantes no circuito turístico mineiro, que atrai milhares de visitantes todo mês em busca de trilhas e cachoeiras. Em épocas de grandes eventos, São Tomé chegou a receber de 15 a 20 mil pessoas.

Mas desde o dia 18 de março, nenhum turista está autorizado a entrar na cidade. A princípio, a decisão valeria por 30 dias. Mas a administração municipal decidiu prorrogar por várias vezes a medida. O último decreto mantém a proibição pelo menos até o fim de agosto.

A prefeitura instalou barreiras com fiscalização da Polícia Militar e Guarda Municipal. Só fica autorizada a entrada de moradores.

São Tomé das Letras recebia milhares de turistas antes de fechar barreiras por conta da Covid-19

Arquivo/Régis Melo

Soma que deu certo

Segundo Sinézio Inácio da Silva Júnior, professor de epidemiologia, saúde coletiva e política de saúde na Universidade Federal de Alfenas (Unifal), não só as cidades do Sul do estado, mas em Minas Gerais como um todo, sem casos de coronavírus, têm a característica de pequenas populações em comum.

"Uma característica que é importante, que tem a ver com essa cadeia de transmissão de uma doença como a Covid, é a densidade demográfica. Se a gente pegar a densidade demográfica média dessas sete cidades, dá em torno de 21. Os polos maiores como Passos, Varginha, Pouso Alegre, Poços, Alfenas, são cidades que chegam a ter 10, 15 vezes mais densidade demográfica, o que facilita a transmissão da doença".

O professor soma ao pequeno número de habitantes o fato de, em sua maioria, se tratarem de cidades mais isoladas próximas à Serra da Mantiqueira. Em relação à São Tomé das Letras e Fama, que fogem dessa realidade, o turismo é mais presente. Neste caso, na opinião do especialista, a atitude dos municípios de fechar as divisas foi fundamental para a realidade atual.

"As cidades turísticas estavam em uma situação de oito ou 80. O maior vetor imediato para a contaminação era o turista. Eles fizeram bloqueios bastante efetivos. Dentro do raciocíno dessas cidades terem tomado atitudes rigorosas, primeiro sinalizaram para aquele turista que pensava em ir pra lá, pra não ir, já ajudou bastante. E de fato evitou que colocasse em circulação o vírus", analisa.

Mais um fator que pode ter contribuído para manter os municípios sem nenhum caso de Covid-19, na opinião do professor, é a relativa distância deles dos grandes eixos de fluxo rodoviário no Sul de Minas.

"Aquele fluxo de logística, até estudos mostram isso, que tem sido um grande vetor. Nessas cidades, apesar de traumática economicamente a falta do turismo, mas com uma demanda diminuída por abastecimento, você soma ao fato de serem pequenas e facilitar até o controle do próprio morador que sai e volta. A rastreabilidade é melhor".

Gonçalves

A mesma tentativa de isolar a cidade parece ter funcionado em Gonçalves. A cidade no alto da Serra da Mantiqueira, que atrai turistas em busca das temperaturas negativas no inverno ou trilhas e cachoeiras no verão, viu seus mais de 1,2 mil leitos de hospedagem ficarem vazios nos primeiros meses de situação mais crítica da Covid-19 no país. Além de barreiras sanitárias, a prefeitura interditou entradas por trechos rurais.

Com o aparente controle da doença, a prefeitura começou a flexibilizar o funcionamento do comércio e autorizar a entrada gradual de turistas. No entanto, há uma série de normas para a entrada dos visitantes.

Gonçalves (MG) ficou fechada para turistas e segue sem casos de coronavírus

Prefeitura de Gonçalves

A partir de um protocolo definido ao setor de hospedagens, pousadas, chalés e hotéis só podem funcionar com 50% da capacidade. As barreiras sanitárias, no entanto, receberam reforço e só autorizam a entrada de visitantes que tenham reservas nos locais de hospedagem autorizados pelo município.

A prefeitura também flexibilizou na última segunda-feira (3) a visitação a cachoeiras e mais atrativos naturais. Mas o decreto diz que só podem visitar os locais pessoas hospedadas na cidade, além de moradores. E reforça a importância de uso de máscara e distanciamento social.

Fama

A situação de Fama sem nenhum caso de coronavírus chama atenção primeiro pelo fato de não estar completamente "isolada" no mapa da doença no Sul de Minas. Isso porque há 20 quilômetros de distância está Alfenas, cidade que até sexta-feira (7) estava entre as 10 com mais casos de coronavírus no Sul de Minas, com 332 confirmações, sendo 21 mortes.

Desde março, a cidade apostou em barreiras sanitárias nas divisas, onde é feito o monitoramento de todos que entram. O objetivo é identificar placas, tempo de permanência e motivo da visita.

No mês de julho, a secretaria de Saúde chegou a decretar o fechamento do comércio, hotéis, pousadas e demais serviços considerados não essenciais aos fins de semana. A alegação da prefeitura para a decisão foi evitar os visitantes de sábado e domingo, que buscam atrações às margens do Lago de Furnas.

Prefeitura de Fama (MG) chegou a aumentar regras de isolamento e restringir o comércio para se manter sem Covid-19

Reprodução/EPTV

Segundo a secretária de Saúde, Soraia Conceição Carlos, a abertura foi novamente autorizada, desde que sejam seguidas normas de segurança. "Tem muito movimento. Este final de semana teve muita movimentação no lago. Mas trabalhamos no isolamento na beira da represa, onde tem as marinas, para que não tenha acesso. Passamos a faixa de isolamento e colocamos fiscais. Muitas pessoas gostam de vir para beira da água, fazer um churrasco, então isso nós não permitimos".

Fama é uma das várias cidades do Sul de Minas que contam apenas com Unidades Básicas de Saúde e não têm leitos para tratamento do coronavírus. Caso registre confirmações, Fama deve encaminhar os pacientes à Santa Casa de Alfenas, referência para outras cidades da região.

"A situação hoje parece regularizada, pelo menos até ontem, mas tudo muda muito rápido. De um dia pro outro a oscilação é grande. A gente depende dos leitos da Santa Casa. Pra nós, enquanto saúde, e todos os municípios que dependem de lá, devemos ficar atentos".

A ideia do setor de Saúde é manter as medidas como barreiras e fiscalizações para que a cidade siga sem casos.

"Caso venha acontecer de aparecer um ou dois casos, nós vamos fechar a cidade e vamos cuidar de outro jeito. Esse é o nosso projeto. Enquanto estiver tranquilo, vamos manter os serviços e as medidas já instaladas".

Entre as demais cidades sem casos, Alagoa, Consolação, Dom Viçoso e Liberdade apostaram em medidas semelhantes, que incluíram suspensão de serviços de hospedagem, barreiras sanitárias, recomendação para adiamento de viagens, além das medidas sanitárias mais comuns, que incluem uso de máscaras e distanciamento social.

Mas até quando?

No entanto, mesmo com um bom cenário sem casos de Covid-19, para o professor Sinézio Inácio da Silva Júnior pode ser apenas questão de tempo até essas cidades registrarem um caso.

"Primeiro, claro, é um cenário positivo, porque a gente ainda tem cidades no Sul de Minas sem casos. Mas tem o lado negativo, porque a gente trabalha com a seguinte questão - não é "se" vai ter e sim "quando" vai ter casos".

O professor avalia que é compreensível que após tanto tempo as cidades comecem a retomar o turismo e outras atividades aos poucos, mas é preciso atenção.

"Elas têm 80% da economia com turismo, então é de se esperar que aconteça isso. Mas se fizerem como estão fazendo, reabrir esse turismo de uma maneira progressiva. O cenário ideal seria com a testagem do RT-PCR, que pega o vírus antes do sintoma. O turista chega, faz o teste e se dá positivo, já isola. O problema é que a gente faz essa medida do sintomático, com febre, que indica o pico da transmissão, então teremos percalços".

Com restrições a turistas e barreiras, cidades pequenas seguem sem casos de coronavírus em MG

Breno Esaki/Agência Saúde

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Fonte: G1

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